os passos que herberto deu foram redondos,
os que o viram passar morreram numa sedosa desgraça,
os óculos que deixavam ver entorpecem paredes,
os pés que calcorrearam essa dança,
os pés que levaram sancho-pança,
os pés que fizeram as pernas gemer,
e o coração manco entorpecer,
já poucas pegadas encaixam nos pés de herberto,
já pouco calos são empedrados na mesma planta.
6.9.14
31.7.14
as quedas dos muros, já não se fazem em metros
as quedas dos muros, já não se
fazem em metros, e as
descidas na neve não são todas
frias, as nuvens brancas
enrolam-se em tudo por onde
passam, o cimento já é duro
que baste, e o papel mais
macio que as noites de
outono, as danças nos
pomares de prata, a mesa dos
miúdos que falam de festas
e as primeiras experiências
sexuais, sobre isso nem os velhos
telhados da baixa se mexem,
nem o escrivão nem o papiro
já se toleram, o asfalto
já não cobre todas estradas
de pó virgem, as serras já
têm poucas hipóteses de
ficar, com alguém neste
planeta, a natureza deve-te
muito pouco e os cães estão fartos.
fazem em metros, e as
descidas na neve não são todas
frias, as nuvens brancas
enrolam-se em tudo por onde
passam, o cimento já é duro
que baste, e o papel mais
macio que as noites de
outono, as danças nos
pomares de prata, a mesa dos
miúdos que falam de festas
e as primeiras experiências
sexuais, sobre isso nem os velhos
telhados da baixa se mexem,
nem o escrivão nem o papiro
já se toleram, o asfalto
já não cobre todas estradas
de pó virgem, as serras já
têm poucas hipóteses de
ficar, com alguém neste
planeta, a natureza deve-te
muito pouco e os cães estão fartos.
16.7.14
os alçapões dourados
os alçapões dourados,
as guias tortas que enrolam mentes em ideias duvidosas,
coxos que resvalam em pensamentos desenquadrados
da relativa permissão cética.
as folhas endiabradas contestam
os calções do outro já não servem
o propósito do ego das fêmeas dos verdelhões,
resvalam em lânguidos corações desengonçados
na rejeição estética.
as guias tortas que enrolam mentes em ideias duvidosas,
coxos que resvalam em pensamentos desenquadrados
da relativa permissão cética.
as folhas endiabradas contestam
os calções do outro já não servem
o propósito do ego das fêmeas dos verdelhões,
resvalam em lânguidos corações desengonçados
na rejeição estética.
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8.4.14
caio na cama
caio na cama
duzentos pesos derrubam
as minhas pálpebras
já dormentes
mal levanto os braços
os dedos duros
as costelas doridas
e o final do domingo
a entrar em casa
a escuridão
escondida debaixo das pálpebras
quer puxar as cortinas
e o cérebro redondo
vai aos poucos implorando
para cair no sono
já nem penso
em mover as pernas
estendidas pesadas ao longo
não alcanço os pés
algures em
lodo paraplégico
a dormência
é grande
é teia que enredeia
submissão
intolerante
duzentos pesos derrubam
as minhas pálpebras
já dormentes
mal levanto os braços
os dedos duros
as costelas doridas
e o final do domingo
a entrar em casa
a escuridão
escondida debaixo das pálpebras
quer puxar as cortinas
e o cérebro redondo
vai aos poucos implorando
para cair no sono
já nem penso
em mover as pernas
estendidas pesadas ao longo
não alcanço os pés
algures em
lodo paraplégico
a dormência
é grande
é teia que enredeia
submissão
intolerante
31.8.13
sobre o infortúnio de estar vivo
escritos sobre o infortúnio de estar vivo. sobre o pensamento suicida. sobre a queda voluntária do sistema analítico e processador da vida corrente. escritos sobre ser olhado enquanto escrevo isto num sábado à noite num café. sobre inglórios momentos. sobre irrisórios dias, preenchidos de inutilidade e dinheiro. sobre todas as não-decisões. sobre a queda do império que nunca existiu.
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Mais do que duro e veloz
mais do que duro e veloz
do céu branco caem brancos
à eternidade já pouco falta
ao tempo pouco de atroz
do tiritar ao nervoso
ao imperial ao consumista
do imóvel cavernoso
mais do que inútil e errado
das páginas sãs não sai nada
daqui ao prelúdio pouco falta
que o plástico não te consuma
do afiambrar ao duvidoso
ao eterno à recompensa
do caixão luminoso.
do céu branco caem brancos
à eternidade já pouco falta
ao tempo pouco de atroz
do tiritar ao nervoso
ao imperial ao consumista
do imóvel cavernoso
mais do que inútil e errado
das páginas sãs não sai nada
daqui ao prelúdio pouco falta
que o plástico não te consuma
do afiambrar ao duvidoso
ao eterno à recompensa
do caixão luminoso.
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6.8.13
As mãos agarram as pernas
não sei como
já não sei quando
as minhas falanges se enrolaram em si
e se fizeram cordas
quando me dou conta
já as mãos se agarram às pernas
as pernas às mãos
numa simbiose, um oroboro
não corro não ando
não falo,
as mãos agarram as pernas
já não sei quando
as minhas falanges se enrolaram em si
e se fizeram cordas
quando me dou conta
já as mãos se agarram às pernas
as pernas às mãos
numa simbiose, um oroboro
não corro não ando
não falo,
as mãos agarram as pernas
6.7.13
Herta
"Perguntou-me de novo se me interessava por entomologia.
– Doidamente – respondi, não faço outra coisa de manhã à noite. Para mim o que não tem seis patas não conta.
– E duas patas?
– Raramente
– Olhe para mim, sério.
Eu olhei para ela, sério. E é das coisas mais lindas para que tenho olhado na minha vida: força, audácia, inteligência, e o negro cabelo mais solto que no bar e os olhos mais escuros na quase penumbra do navio. Ficara de lábios entreabertos como para falar e eu esperava para a escutar, como se fosse para a eternidade. Oxalá fosse para a eternidade, eis a ideia que me acudiu, o que significa provavelmente que eu não estava muito bom da cabeça."
in "Herta" Herta Teresinha Joan, de Agostinho da Silva
– Doidamente – respondi, não faço outra coisa de manhã à noite. Para mim o que não tem seis patas não conta.
– E duas patas?
– Raramente
– Olhe para mim, sério.
Eu olhei para ela, sério. E é das coisas mais lindas para que tenho olhado na minha vida: força, audácia, inteligência, e o negro cabelo mais solto que no bar e os olhos mais escuros na quase penumbra do navio. Ficara de lábios entreabertos como para falar e eu esperava para a escutar, como se fosse para a eternidade. Oxalá fosse para a eternidade, eis a ideia que me acudiu, o que significa provavelmente que eu não estava muito bom da cabeça."
in "Herta" Herta Teresinha Joan, de Agostinho da Silva
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23.6.13
sobre poesias do descalabro
sobre poesias do descalabro
sobre razões empobrecidas
versos inócuos sobre sentimentos de outros
e distâncias longas
sobre fantasias do velho adro
sobre canções conseguidas
sobre ventos adversos
redundâncias, ondas
sobre o feito e o desfeito,
o impensável moribundo desperto,
e a dança das folhas,
os cães no céu perfeito
sobre o desvendável e o incerto
sobre palavras presas em lama
sobre razões empobrecidas
versos inócuos sobre sentimentos de outros
e distâncias longas
sobre fantasias do velho adro
sobre canções conseguidas
sobre ventos adversos
redundâncias, ondas
sobre o feito e o desfeito,
o impensável moribundo desperto,
e a dança das folhas,
os cães no céu perfeito
sobre o desvendável e o incerto
sobre palavras presas em lama
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1.5.13
10.3.13
4.2.13
a ode
parte 1 – os cães
os humildes,
os fracos,
os conas,
odeio-os,
odeio os ingénuos,
odeio os indecisos,
odeio os incapazes,
odeio os envergonhados,
os horríveis,
os cães,
odeio os bloqueados,
odeio estes bailes,
estas danças,
odeio a alegria,
odeio o grafite,
odeio o pensamento,
amo a morte,
amo o desespero,
amo a demência,
o suicídio,
amo o ódio;
esta uma ode à carnificina mental,
ode à decadência emocional,
ode ao princípio do fim,
às lágrimas,
ode ao resto,
ao infortúnio,
ode às noites baralhadas,
ode à pessoa.
parte 2 – ode ao cagalhão
ode ao cagalhão,
à merda que vem dentro de ti,
ode ao teu coração,
ao que já vivi,
aos cães cismados,
ao estardalhaço,
aos animais enfurecidos,
ode à folha suja,
ode ao meu espaço,
ao real parvalhão,
ode que implode,
ode que trespasso,
aos rituais esquecidos,
ode à canalha que surja,
ao meu servil maço,
ode à implosão,
ode ao cão que não morde.
os humildes,
os fracos,
os conas,
odeio-os,
odeio os ingénuos,
odeio os indecisos,
odeio os incapazes,
odeio os envergonhados,
os horríveis,
os cães,
odeio os bloqueados,
odeio estes bailes,
estas danças,
odeio a alegria,
odeio o grafite,
odeio o pensamento,
amo a morte,
amo o desespero,
amo a demência,
o suicídio,
amo o ódio;
esta uma ode à carnificina mental,
ode à decadência emocional,
ode ao princípio do fim,
às lágrimas,
ode ao resto,
ao infortúnio,
ode às noites baralhadas,
ode à pessoa.
parte 2 – ode ao cagalhão
ode ao cagalhão,
à merda que vem dentro de ti,
ode ao teu coração,
ao que já vivi,
aos cães cismados,
ao estardalhaço,
aos animais enfurecidos,
ode à folha suja,
ode ao meu espaço,
ao real parvalhão,
ode que implode,
ode que trespasso,
aos rituais esquecidos,
ode à canalha que surja,
ao meu servil maço,
ode à implosão,
ode ao cão que não morde.
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25.10.12
gutural framboesa
o sentimento desmedido
a calma delirante
o desmentido
a distância verdejante
palerma descontente, aspecto vendido
gutural framboesa
a calma delirante
o desmentido
a distância verdejante
palerma descontente, aspecto vendido
gutural framboesa
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21.10.12
ossos finos
ossos finos fazem leituras,
duros e esguios, enrolam-se na pele
queimada pela luz ocre vadia,
estéril e solitária,
deixa-se cair sobre as folhas dos livros,
cai escurece o papel e embrenha-se
nas pontas dos dedos do homem,
encrava-se por baixo das unhas, pelas
dobras do osso mais duro e fino,
deixam-se cair pestanas na solidão ocre,
inunda-se num permanente ida.
duros e esguios, enrolam-se na pele
queimada pela luz ocre vadia,
estéril e solitária,
deixa-se cair sobre as folhas dos livros,
cai escurece o papel e embrenha-se
nas pontas dos dedos do homem,
encrava-se por baixo das unhas, pelas
dobras do osso mais duro e fino,
deixam-se cair pestanas na solidão ocre,
inunda-se num permanente ida.
20.10.12
havia doses de cânhamo
havia doses de cânhamo
espalhadas pelo chão,
doses contadas, e ordenadas,
em números primos prevalecem
a furos no banco de mogno escuro,
havia caixões em nogueira, cerejeira e carvalho,
pregados com finos
pregos de aço duro,
havia cânhamo,
havia números, doses,
unidade, matemáticas
e materiais,
no vazio das caixas
mora o desprezo do corpo.
espalhadas pelo chão,
doses contadas, e ordenadas,
em números primos prevalecem
a furos no banco de mogno escuro,
havia caixões em nogueira, cerejeira e carvalho,
pregados com finos
pregos de aço duro,
havia cânhamo,
havia números, doses,
unidade, matemáticas
e materiais,
no vazio das caixas
mora o desprezo do corpo.
à monogamia interior
à monogamia interior
ao decadentismo
ao desprezo
às paragens de digestão
ao desamparo subliminar
às quedas dentro do copo
aos cães que rogam
aos que cantam o teu destino
aos intestinos que se contorcem
às quedas livres
aos corações
às más percepções
aos goles de verde espírito
à controvérsia incolor
ao eufemismo
às margens do vulcão
ao sono deitado no mar
às pedras que já enxoto
às mães que choram.
ao decadentismo
ao desprezo
às paragens de digestão
ao desamparo subliminar
às quedas dentro do copo
aos cães que rogam
aos que cantam o teu destino
aos intestinos que se contorcem
às quedas livres
aos corações
às más percepções
aos goles de verde espírito
à controvérsia incolor
ao eufemismo
às margens do vulcão
ao sono deitado no mar
às pedras que já enxoto
às mães que choram.
22.9.12
se o suicídio bastasse
se o suicídio bastasse
se esse edifício já não tivesse pé
se as noites tivessem mais tentações
se todos os abraços frios fossem mais quentes
se os calções de verão ficassem todo o ano na ementa
se o teu coração não escavasse no meu as esporas de domador
se rabos dourados houvesse todo ano
não sei se o meu suicídio bastaria
restariam migalhas
grãos de sal na toalha do almoço
nesse edifício de carne já só são vivas as paredes do desequilíbrio
nessa pose de ninfo-virgem sobra o descalabro
o fim das quedas
cravam-se no meu tecido entorpecido
já só dormem mobílias antigas
mobílias de outra cidade.
se esse edifício já não tivesse pé
se as noites tivessem mais tentações
se todos os abraços frios fossem mais quentes
se os calções de verão ficassem todo o ano na ementa
se o teu coração não escavasse no meu as esporas de domador
se rabos dourados houvesse todo ano
não sei se o meu suicídio bastaria
restariam migalhas
grãos de sal na toalha do almoço
nesse edifício de carne já só são vivas as paredes do desequilíbrio
nessa pose de ninfo-virgem sobra o descalabro
o fim das quedas
cravam-se no meu tecido entorpecido
já só dormem mobílias antigas
mobílias de outra cidade.
20.9.12
sobre o aqui e agora vomito
sobre o aqui e agora vomito:
citrinos embebidos em gin tónico,
um contrabaixo cool, mar undulante,
caem lágrimas de vidro do piano de cauda,
a voz da Norah cheira a ternura,
há camisas cremes, amendoins e muito sal,
aplausos e sofás brancos, mesas de madeira,
há gelo a derreter em todos os copos,
mar verde a pintar as paredes,
brancos enquadrados, deixam entrar
meia cidade em janelas alargadas à doce vista.
Há sobre isto tudo um bafo de Belzebu, vozes
mornas, vidas, vidas de meio-termo
passeando pelo ar.
citrinos embebidos em gin tónico,
um contrabaixo cool, mar undulante,
caem lágrimas de vidro do piano de cauda,
a voz da Norah cheira a ternura,
há camisas cremes, amendoins e muito sal,
aplausos e sofás brancos, mesas de madeira,
há gelo a derreter em todos os copos,
mar verde a pintar as paredes,
brancos enquadrados, deixam entrar
meia cidade em janelas alargadas à doce vista.
Há sobre isto tudo um bafo de Belzebu, vozes
mornas, vidas, vidas de meio-termo
passeando pelo ar.
19.9.12
se a monogamia já não te chega
se a monogamia já não te chega
se os teus sonhos já saíram da tua cama
deixa o cabelo crescer
deixa o lençol descer
não deixes isso incomodar
não deixes que isso,
deixa o cabelo voar
deixa que isso te faça mudar
que a monogamia se redobre
que a tua cama por mais calor se revogue
olhos novos brilham renascem
em compassos delicados que ondulam
se os teus sonhos já saíram da tua cama
deixa o cabelo crescer
deixa o lençol descer
não deixes isso incomodar
não deixes que isso,
deixa o cabelo voar
deixa que isso te faça mudar
que a monogamia se redobre
que a tua cama por mais calor se revogue
olhos novos brilham renascem
em compassos delicados que ondulam
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