30.4.12

a dor não te cai do céu aos tropeções certamente
não existe se não a pagas
não dói se não existes

assim, de algum jeito
talvez as lágrimas jorrem da caneta
assim, talvez a dor pinte palavras
talvez, a mágoa já esteja escrita
talvez a poesia não seja nada

não vai crescer no asfalto
da raiva dormente só nascem suspiros vazios
não escava a terra mais dura
por debaixo dela vive a dor que não existe.

26.3.12

ideia idiota

este post é só para comemorar  os "100 posts"

25.3.12

os sapos deixam-se cais mudos

os sapos deixam-se cais mudos
a garganta engolirá a alma
o bloco encarnado ri em agudos
os sapos espernear-se-ão sem calma

os condores cinzentos aguardam-nos
a queda aguarda calma serena
o medroso linear espera-vos
o bloco encarnado, cai helena

a contradição reinará em fraqueza
os elementos viverão débeis imunes
partida a escada da certeza

o doce dobrar dos degraus do animal
sete gotas frias de silêncio quedo
um paquiderme descerá imortal.

15.2.12

Saltos

Saltos, pulinhos de trepidação continuada de amoras florescentes celestes
Reviravoltas, piruetas, crescentes, catapultas de passos de dança, voláteis, circundantes florescências lineares revertidas em créditos revividos
Capuzes que ensacam amoras mirabolantes
Capuzes que fecham frutas silvestres dentro de florestas de embustes castrantes
Capuzes de algodão tecido, enredado por mil fios negros, cabelos pretos de arame
Os saltos caem dentro de saltos dentro do capuz entorpecido dentro de uma ferocidade alheia.

11.2.12

as unhas

neste dias suprimidos pela exaustão
restringidos ao isolamento mental,
onde o frio do céu desceu ao meu quarto,
converteu as minhas falagens regulares
em estalagmites glaciares,
tornaram-se extensões repulsivas gélidas,
as unhas
essas,
são mais que frias
são metálicas,
pedras que queimam a pele
queimam até a osso,
o puro glaciar entrou-lhes no ADN
são excomungadas do toque em parentes
o toque só lhe é dado pelos irmãos.
estão privadas de ficar perto do peito
que lhes pede o toque
mas que o matam,
unhas de Midas

3.12.11

se o vermelho é a cor da paixão
banha-me com a tua menstruação


uma pérola de linguagem brejeira traduzida do espanhol peruano, encontrei recentemente no filme "La teta asustada".

22.11.11

o café do feijão selvagem

onde se lança o mote à libertinagem
onde se vive, onde se pára e segue viagem
o artifício é vendido caro
a selvajaria a preço de ouro
vitamina que te estampa o emparo

10.11.11

correntes de loucura marcadas

correntes de loucura marcadas
contra o corpo dela apertadas
cadentes de ternura
dois pés, três pés, quatro pés
tropeçam em sim, sobre si
enrolam-se, pontapeiam-se dentro de si.

as cores que vendi e recebi
já me esgotaram o coração
aos amores que bebi e reli
cá fizeram a ovação.

26.10.11

são claros quadros sangrados

são claros quadros sangrados
com ultravioleta, vãos marados e
vulva roseta. mãos
são pensamentos pequenos, de
curta duração e fraca articulação.
esperam-me um dia melhores
palavras

4.10.11

já cá cantam doze fios

já cá cantam doze fios
salteados, volteados,
mil voltas já deram
já cantaram onze rios,
chocam enrolados,
nove mil estradas desfizeram

17.9.11

soneto amador livre #04

dessa idiota convalescência
deixo que se eleve, que se torneie,
que essas carnes em incandescência
fulgente, nervosa se incendeie

desse calor que erra nu, vagas
me envolvem, iridiscentes
pragas trepidantes percorrem-me
esses músculos em chama dormentes

tépida atmosfera envolvida
embutida em vermelho d'ouro
falsa mesquinhez enriquecida

dessa cama quente revolvida
donde morreu e nasceu ferro frio
entupida de fulgor e cor ida

4.8.11

reclinado em mil ardis enjeitados
ócio barato para o veraneio
rotineiro, dormente, dolos defecados.

14.7.11

soneto amador livre #03 (incompleto)

dois louvores que se pelejam
pelo fim do sóbrio mau-estar
invocam o nada que invejam
absortos, inócuos para ficar

três cantares desonestos viajam
numa sobriedade infrutífera
recheio de vazio massajam
em quão gélida e mortífera.

8.7.11

dai-nos obras para fazer
dai-nos pensamentos pa' não ter
levai-nos a dor de pensar
como bravo elefante faz-nos morrer.

22.6.11

É tudo uma questão de sobrevivência

vultos de sangue percorrem nossos
odores em corpos, matéria envolta
vultos de culpa ensombram tais colossos
amores mortos, veleja aqui solta

surtos de escuridão mesquinha alada

15.6.11

O odor a cebola

O odor a cebola prende-te os dedos, colado da terra, frutosa, uma profunda seiva, fecunda, néctar rico.
A perseguição já vai longe, corre desde a última refeição, corre por tempos e espaços diversos, corre, atravessa dimensões, perpetua na tua epiderme o desgosto a deslocação gananciosa sideral.

divagação: bipolar

Não lhe chamaria bipolaridade, antes "multi-polaridade", seria mais correcto, já que constantemente se perde a noção dos pólos. Já não estaria muito longe da verdade se dissesse ser "inpolar" ou "anpolar". Pois tenho dúvidas se existirá definição suficiente para ser constituído um pólo

13.6.11

irra! que duende, arrepios gelados da electricidade que se prende estatelada que corre fugaz, por rios coados;
debaixo de epiderme bem estimulada

10.6.11

soneto amador livre #02

ainda há edifícios por demolir
ainda há paredes para engolir
almas empestadas de cimento
qual vinagre, qual constrangimento

almas que te fazem carpir
ainda há maldade a infligir
dor que passa por alimento
um sólido estacado no pensamento

prédios, casas, métricas, pa' cumprir
linhas, almas, bocas mastigadas
incontáveis rebentos para florir

vultos mortos moles petrificados
muros de cimento em quatro estopadas
mil castros cadáveres edificados

maquiavélica indolor

maquiavélica indolor
três quartos limados dum supor
andrógina vil e sarcástica
maquinaria imbecil plástica.