26.5.04

há quem diga que somos nós
que são eles por vós
que a alma não seja tua
que a dor não seja de alguém
há todavia alguém
quem tem
que sente não tem
há ser por um viver 

diz arder para ficar
diz valer para voltar
que volta que arde
que valor que fica
por dizer acreditar
por ficar em dizer
tua dor para mim
para aqui tu a mim
fazes minha alma
fazes meu vazio
fazes meu aqui.

21.5.04

pequenas pérolas negras

vejo teus
teus olhinhos pequenos
vejo-os perdidos
além de uma linha
aquém de um alguém
não sei
sinto, respiro
vejo-os noutro pensar
não os sinto no meu mundo
sinto-os num longínquo ar
num que queria ser
meu eu
vejo-os frágeis
deveras inocentes
procuram alguém
alguém eu queria ser eu
sinto compreender – incompreendido
dá-me uma relevância inócua
arrancam-me pedaços de carne
arrancam-me sem-vida elevados
fogem em nuvens negras, desaparecem
numa intoxicação libertina sarcástica
de poeira latente a gramas e gramas de pura alucinação
dado ar mortífera descensão, intrínseca sombra andante.