30.10.08

que
dia seco, onde
tarefas do inútil
de apreço cagalhonês
rebolam pela ladeira de barro claro 
minha santidade é imatura
minha santidade é ingénua
não é a afinidade que lhe concede as volúpias
que na tarde se estendem melosas
nem me provêem
as cruzes que tem atravessadas nas costas
eis-me aqui depois de um rol de adjectivos improváveis
depois de um dia seco, de mais um dia zero, de mais um dia nada
que anoitece com escritas dementes automatizadas
vê fechar as lebres dilaceradas
e vê o vento cobrir a porcaria na janela
não falo mais do que a noite guarda
não digo o que a tarde escondeu
defeco tudo o que me doeu
a minha santidade é ignóbil

23.10.08

quero ver estorninhos a dançar por cima dos teus cabelos
quero ver entardecer o dia em que estivemos juntos
quero soltar gemidos, arrastar-me, ver-te de joelhos
quero voltar de noite, ver, fechar os olhos, não pensar muito

26.9.08

Assim que entrou pelas portas de mogno entreabertas, com um passo cambaleante mas vigoroso. limitou-se a proferir que se encontrava de feição. De facto, ele até estava de feição. Mas depois das nove foi impossível aturá-lo, o desassossego que lhe percorria as costas, fazia-o gastar as solas dos sapatos na enorme e velha carpete estendida na sala.

2.8.08

mas, eis que são esboços que
soltam virtudes, que
soltam porcaria
que despejam em catadupa
toda a imundice por mim devorada,

ah!
esbarrar contra o chão assegurado,
furar as órbitas e virar o nariz para dentro,
espasmos de sangue, espasmos de saliva
com o maxilar desfeito no vómito e
com a língua morta pendurada  pela traqueia
- vais tentar te levantar mesmo antes de te cortarem as orelhas,

não é quando morto-vivo que te vais
é cadáver o vivo, é morte estar aqui,

sai, sai, sai,
em esboços malditos
malfeitos  e sem rumo,
giram em ideias cambaleantes
rodopiam na imundice enlameada.

10.6.08

a hipocrisia é de todos
uma é minha
outra é tua
outra é de quem a apanhar.

4.4.08

e eu digo estar cansado.

podes dizer o que te apetecer.

toda a gente pode.

muita gente não quer.

muita gente escreve.

5.3.08

o ténis

o ténis joga-se com uma raquete e uma bola
o equipamento dos jogadores deverá ser constituído por roupa clara, confortável e prática
assim como calçado apropriado específico para a modalidade
os rapazes na minha escola usavam calções e polo brancos, as raparigas usavam saias muio curtas e polo branco. às vezes quando se baixavam conseguíamos ver as cuecas delas.

3.1.08

é bom ouvir chover lá fora
ouvir a água passar pelo telhado e caleiras
ouvir o vento abanar as árvores e empurrar a chuva
não é bom ouvir isto porque é tarde para estar acordado,
não é bom porque o oiço pensando
oiço as janelas e portas batendo com a ventania e a chuva.