27.12.10

Animal 4

antes do rodopio na ravina
o animal vive,
salta, espreita, corre, agacha-se, desliza, balança, arranca

Animal 3

animal eregelado
distante e cruzado
trepa, lança as pernas abismo abaixo
a geringonça persegue-lhe a sombra
as mãos abraçam o fio pendente
corpo dobrado
baloiça-se dormente
caído no cião frio
debaixo do cubo luzente
reveste a pele de rebentos
de sangue maltratado.

Animal 2

instala-se num frenesim
num frenesim de terminados prazeres
instala-se no corpo quente do animal
concebe nele um estado eléctrico
de espasmos duros

dorme, vive assim
vive na casa, vive nos muros
o animal cavalga nos sonhos
dorme a corrida imóvel
de veias gordas

26.12.10

estar no degrau
não descer nem subir
estar no degrau
morrer e cair

vontade de estar
onde se está
vontade de ficar
com quem se está

rebolar escadas abaixo
sentir as dobras nas costas
dançar passo macho
dormir numa posta

ficar no degrau
no último a cair de mau
ficar parado
no último sítio sorteado

23.12.10

Animal 1

debaixo da inútil geringonça medieval
voa sorrateiro numa bolha de tédio
o animal
cabisbaixo com os braços finos e prolongados pelo abismo escavado no pesado pêndulo
o grande porte que apresenta
não lhe chega para aguentar mais tempo
o fio rebentado - a cruz rodopiando e cadente
no sol quadrado
café morto
azul gelado

15.12.10

.

o sentimento desmedido
a calma delirante
o desmentido
a distância verdejante
palerma descontente, aspecto vendido
gutural framboesa carmim
desmentido idiota vitral
de distância sentida
de delírios colorida
em amargo embaraço de animal
um medíocre mastim
uma obesa errância,
alma debutante

Estamos todos sozinhos nisto

estamos todos sozinhos nisto
estamos todos sozinhos
num bloco carmim de corte transparente
réptil idiota sozinho
pandemónio de vinho fosforescente
corte caótico imoral na solidão demente
copo transparente de vocábulos
perdidos
cada vez mais juntos
mais e mais
abraçados
mais e mais
apartados
mais e mais nós
depois de cada segundo de vinho
o transparente centípede rosado idiota amado sozinho
perdido no fundo do caos
no bordo do copo, na fosforescência de estar
de claro ficar

11.12.10

300 horas

a boa experiência destes últimos dias da privação do banho de roupas lavadas tem sido o melhor que me aconteceu nas últimas 300 horas o número mínimo de refeições junta-se boa literatura e filmes eruditos e finalmente quando começo a sentir o cheiro do suor dos meus sovacos aos poucos começo a fazer parte disto não sou merecedor ainda estou a milhas do que queria atingir do êxtase porventura opostos aos convencionais melhores níveis de higiene e saúde
(quero continuar)
quero sair de casa não quero nada como está queria tomar menos vezes banho comer menos perder apetite menos frangalhos e uma cona saborosa ao meu lado quero cheirar mais mal e beber cocktails de absinto quero saber escrever
(quero continuar)

8.12.10

Interzona 2

estou na interzona, em transe, a precisar de uma foda urgente

Interzona 1

tou a pensar escrever um livro sobre maltrapilhos e gajas boas

6.11.10

Nada existe

Nada é real
Nada existe
Nada acontece
Não escrevo
Não o sei
Não existe esta caneta
Não existe a tinta que tem dentro
Nada - não sei

Nem os movimentos
Que me saem desta mão
São mesmo movimentos
Não serão espasmos
Nem sei, nem existe

Não acontece
Não será amanhã
Não é hoje à noite
Ainda não foi
Espero pela certeza
Da realidade de nada

19.4.10

La decadence

Decadência,
A descida dos dois primeiros e únicos degraus.

5.4.10

num outro dia pensei diferente.
as pessoas de todos os dias são as mais giras.
ainda estou um pouco intrigado sobre isto.

20.3.10

as pessoas de todos os dias são feias

29.1.10

imbecil vil

sou humano demais