3.12.11

se o vermelho é a cor da paixão
banha-me com a tua menstruação


uma pérola de linguagem brejeira traduzida do espanhol peruano, encontrei recentemente no filme "La teta asustada".

22.11.11

o café do feijão selvagem

onde se lança o mote à libertinagem
onde se vive, onde se pára e segue viagem
o artifício é vendido caro
a selvajaria a preço de ouro
vitamina que te estampa o emparo

10.11.11

correntes de loucura marcadas

correntes de loucura marcadas
contra o corpo dela apertadas
cadentes de ternura
dois pés, três pés, quatro pés
tropeçam em sim, sobre si
enrolam-se, pontapeiam-se dentro de si.

as cores que vendi e recebi
já me esgotaram o coração
aos amores que bebi e reli
cá fizeram a ovação.

26.10.11

são claros quadros sangrados

são claros quadros sangrados
com ultravioleta, vãos marados e
vulva roseta. mãos
são pensamentos pequenos, de
curta duração e fraca articulação.
esperam-me um dia melhores
palavras

4.10.11

já cá cantam doze fios

já cá cantam doze fios
salteados, volteados,
mil voltas já deram
já cantaram onze rios,
chocam enrolados,
nove mil estradas desfizeram

17.9.11

soneto amador livre #04

dessa idiota convalescência
deixo que se eleve, que se torneie,
que essas carnes em incandescência
fulgente, nervosa se incendeie

desse calor que erra nu, vagas
me envolvem, iridiscentes
pragas trepidantes percorrem-me
esses músculos em chama dormentes

tépida atmosfera envolvida
embutida em vermelho d'ouro
falsa mesquinhez enriquecida

dessa cama quente revolvida
donde morreu e nasceu ferro frio
entupida de fulgor e cor ida

4.8.11

reclinado em mil ardis enjeitados
ócio barato para o veraneio
rotineiro, dormente, dolos defecados.

14.7.11

soneto amador livre #03 (incompleto)

dois louvores que se pelejam
pelo fim do sóbrio mau-estar
invocam o nada que invejam
absortos, inócuos para ficar

três cantares desonestos viajam
numa sobriedade infrutífera
recheio de vazio massajam
em quão gélida e mortífera.

8.7.11

dai-nos obras para fazer
dai-nos pensamentos pa' não ter
levai-nos a dor de pensar
como bravo elefante faz-nos morrer.

22.6.11

É tudo uma questão de sobrevivência

vultos de sangue percorrem nossos
odores em corpos, matéria envolta
vultos de culpa ensombram tais colossos
amores mortos, veleja aqui solta

surtos de escuridão mesquinha alada

15.6.11

O odor a cebola

O odor a cebola prende-te os dedos, colado da terra, frutosa, uma profunda seiva, fecunda, néctar rico.
A perseguição já vai longe, corre desde a última refeição, corre por tempos e espaços diversos, corre, atravessa dimensões, perpetua na tua epiderme o desgosto a deslocação gananciosa sideral.

divagação: bipolar

Não lhe chamaria bipolaridade, antes "multi-polaridade", seria mais correcto, já que constantemente se perde a noção dos pólos. Já não estaria muito longe da verdade se dissesse ser "inpolar" ou "anpolar". Pois tenho dúvidas se existirá definição suficiente para ser constituído um pólo

13.6.11

irra! que duende, arrepios gelados da electricidade que se prende estatelada que corre fugaz, por rios coados;
debaixo de epiderme bem estimulada

10.6.11

soneto amador livre #02

ainda há edifícios por demolir
ainda há paredes para engolir
almas empestadas de cimento
qual vinagre, qual constrangimento

almas que te fazem carpir
ainda há maldade a infligir
dor que passa por alimento
um sólido estacado no pensamento

prédios, casas, métricas, pa' cumprir
linhas, almas, bocas mastigadas
incontáveis rebentos para florir

vultos mortos moles petrificados
muros de cimento em quatro estopadas
mil castros cadáveres edificados

maquiavélica indolor

maquiavélica indolor
três quartos limados dum supor
andrógina vil e sarcástica
maquinaria imbecil plástica.

9.6.11

soneto amador livre #01

e por aqui ficamos
quando já nada nos espera
por aqui se fecha a nossa esfera
onde já tarde nos deitamos

e por aqui estamos
onde nasceu e morreu a glória
por aqui se fez história
onde perdidos nos amamos

e por aqui nos deixamos estar
por aqui tentamos arrastar
degustar congelando neste segundo

por aqui ficamos em gelo
com os ponteiros enrolados em novelo
por aqui morreremos, abastados deste mundo

8.6.11

dias de festa,
dias da noite,
dias dobrados,
dias sobrados do que lhes resta,
coisas rolam e pulam,
coisas que se notam,
coisas que se bajulam,
coisas de dias que perduram,
dias com coisas que emulam,
dias dobrados em coisas mil,
longe dos dias das vaginas bem vestidas,
restou o dia soturno civil,
onde logrou o suor das investidas.

31.5.11

o último que ri
o último vampiro
o que se pode rir
o que usa os teus
gestos e a tua vida.

22.5.11

na decadência

na decadência de já não saber
onde se vive, onde se morre
onde já estive
com e sem decência
sentado e deslavado
com e sem pessoas, plantas, animais
com pedras
viva carência
vil carne empobrecida
à inteligência
não resta dívida
o espírito aguarda a um canto
impávido desenquadrado,
à ciência
o imoral

19.5.11

antes de ser vivo

antes de ser vivo
antes de alcançar
a tristeza abençoada
antes de ser um foragido
de esquecer de beber
e baixar a cabeça.

1.5.11

sete caixas fechadas na orla

sete caixas fechadas na orla,
na onda crescente larga
dos longos cabelos negros da noite amarga
sete aloquetes, uma borla

quantos segredos, quantas viagens
apertadas contra paredes vidradas
aquecem, enternecem seios e coxas
levantam, voam voam sem paragens
brisas pelos cabelos longos iradas
esquecem, amolecem ondas mochas.

(silvia)

15.4.11

vestidas com uma pele suja

vestidas com uma pele suja
calcanhares despidos
calcadas rochas duras
imóveis roupas estéreis
embrulham ossos ternurentos
frágeis capas
trespassam inócuos sentidos
sobre escrever e viver
sobre dobras, costuras,
erros, tez alva macilenta,
esperam quietas os pequenos momentos
que procuram, que odeiam.

1.4.11

noites de sexta-feira

noites épicas de sexta-feira
de libertinagem, poesia,
danças nuas com absinto.

noites da liberdade estrafegada
consciência desnorteada
sem roupa, sem banho,
com dor, com apatia.

noites de café
noites de whisky
complexas
difíceis, difícil peculiar,
estranho estar.

noites curtas
breves e longos inícios,
desfiar mole de sonos,
até ao fim dos grãos danados.

30.3.11

ah tão bom que é
a chegada do verão,
a chegada do novo sol
ver as miúdas novas do inverno
agora
com menos roupa e mais odores
odores que não suporto
de quenturas do inverno próximo
morte de odores
pior que pólen a brotar são estes cheiros que emanam pútridos corpos.

29.3.11

as curvas grisalhas do amor
deixam cair sobre si
com deleite contido,
a luz platinada,
macia e cortante,
verga-se sobre as faces escuras
quebra-se nas lâminas cortantes

diz que se sente velho
sente sair de si o rancor
cair em si o desamor
vê esvoaçar sobre os cabelos
cadeados brancos de amor
sente poisar em si
o especial tom bronze-cobre
do amargo licor envelhecido
o que escorre para o fundo
inoportuno, lavagante,
num borralho quente,
guardado na garganta dura e húmida.

26.3.11

na primavera prateada
as flores de luz no regaço
também se desvanecem

as personagens monocromáticas
que morriam nos filmes
também se desvanecem

23.3.11

No dia em que me apanhares

no dia em que me apanhares
estarei à tua espera
de cabeça sentada nos anos que passaram
a sonhar sobre adegas e patamares

no dia em que me encontrares
gostava de sonhar que gostava
com o pensamento morno
estarei a lavar-te, quantos baleares

no dia em que me encontrares
já estarei à tua espera
de rosto rugoso arregaçado
trocaremos cinismos inúteis ares

bolsas de gás
contracções
pestilência
redondo rebenta
precoce e levita
levita e cai
contrai
convulsões
ameaças
saltita
esperneia
dilata
explode
contrai
recolhe
encolhe
dobra
contrai
dilata
explode
rebenta
cai
catadupa
viral
cicuta
vendaval
prazer

o alívio
correria
urgência
alegria
coração
esponja mel
boquiaberto
enamorado
em todo o lado
todas as horas
qualquer prado
onde moras

deitado
caído
imóvel
instante distante
retorcido
dobrado
branco e frio
conduzido gelado
brisa
esgueira
fumo que desaparece
que leva tudo e esquece.

19.3.11

As unhas

as unhas
as mãos
a caneta

o entrelaçado guardado
crespo no armário
enrolado ou dobrado
molhado mau hilário

os dedos
os braços
a tinta

o resguardo vincado
nas costas duras
esticado bem armado
gelo das alturas

as unhas
as mãos
os nervos

4.3.11

Às três ou quatro da manhã faltam quinze minutos para atravessar a cerca imoral do

catálogo ilustrado com garrotes e adagas brilhantes

-é tão bom que já começo a sentir náuseas-

salvação ironicamente vertiginosa

pela bigorna indomável e o relógio de batata

bisnaga volúvel a de Madeleine gira sobre si

28.2.11

sete valsas

sete valsas perdidas no verão
sete valsas esquecidas no pó do candelabro
começo a arremessar pêssegos de lã
soltos em cristas correntes esmagados
valsas largas vislumbres compassadas
calóricas virtudes amargas
com os pés leves no chão
soltam-se passos vagos, soltam-se
voltas redondas infinitas
correrias em prata brilhante
círculos de fruta doce
espirais estonteantes
enroladas como raízes aos teus pés
voltas de valsas sete
giram, giram e giram
entrelaçam a pele suave
das tuas pernas
no emaranhado de melodias sete
sobe sobe sobe.

23.2.11

Leituras brancas

leituras brancas
oportunas ou endiabradas
leituras modestas, perversas, ou enterradas
correntes leves
correntes congestionadas
brisas de passos largos
tufos de notícias locais e do além
há estampas floridas na artilharia1
há paredes de baunilha
e senhoras simpáticas a dar informações a condutores perdidos
descidas verdes e vermelhas
agoniadas ou clandestinas
sonhos, desgostos, iminências, eventos, perturbações
tudo me empurra e empurra
fundo para o seio da escrita
a escrita débil e rude corre e apunhala
trespassa-me o coração e o pensamento

sinistro, branco, com agulhas finas compridas apontadas ao tecto
há tanta luz na sala que divago para todo o lado
há tantos brancos derramados
tanta desconcertação viva

13.2.11

Na ala do jardim das trevas

Na ala do jardim das trevas
o leão e o tigre dourado
deambulatório de danças exóticas
os cães e os felinos as aves os mamíferos de grande porte
todos copulam
trocam de pares
fazem ímpares, combinações
cheios de gestos perversos
balanços rodopios flagrantes selvas musgos húmidos e verdes

caos em Manaus
no jardim dos destroços de troncos em chamas
riachos lagos mares entorpecidos
de peixes assexuados
de significados órfãos
é assim o jardim da insónia
das árvores frondosas e arbustos fechados
a abocanhar trechos de branco.

9.2.11

2+2

Cão de madeira, sapo na ratoeira
rato na oficina, tigre da Conchichina
pulga na laranjeira, gato na fruteira
mão de plasticina, sandes de aspirina

corvo de borracha, bolo de bolacha
ténis de papel, gesto de mel
cão segue a marcha, assina e despacha
grogue infiel, cabo de Espichel

dedo na trincheira, passo a passo se esgueira
húmido prazeroso rosto, belo delicioso gosto
aranha matreira, figo figueira
dedo quente posto, figo de Agosto.

6.2.11

Não enchas a memória

não enchas a memória
com torrões mil
não enchas com carrascos
esta história
não entres no covil
caramelos duros e penhascos
não enchas a memória
com flores de Abril
não enchas com vitória
volúpia insana de Damascus

Duas estrofes sobre janelas

Os ventos finos
dobram as cortinas
as vestes de milhares de janelas
dançam indecisas o fora-e-dentro

pelos mil olhos quadrados
passam as areias de seda
para cima e para baixo
rodopiam em remoinho
erguem-se sobre o seu corpo doce
no último suspiro
deixam-se cair moribundas
elegantes guilhotinas a fechar os quadros de pedra

Manhã

a luz que nasce lá fora
entra em fios de seda
pinta todas as paredes
todos os objectos
todas as superfícies
todos os olhos
lá fora brota feliz
pinta meio mundo
só não cai no buraco mais profundo

5.2.11

deste fim

Este fim não está bem tratado, este pó que caiu sobre nós entupiu-me as ideias bloqueou-me o raso vão limitado hemisfério idiota.
Neste fim rolam vacas inteiras contorcidas no seu máximo rolam rolam rolam rolam rolam do cume do grande planalto verde luminoso enquanto desajeitadas embatem com tetas pénis contra o planalto agora vertiginoso e derramam sobre si um banho imenso de esperma leite pigmentos de terra de erva de pedras de pequenos mamíferos de arbustos secos de insectos âmbar.
Entre um fogo-de-artifício de jactos narcisistas pálidos compridos dançam encadeados triângulos atuns e charmantes framboesas.
Das delirantes paixões engordam dias com mandriões neste fim que já passou do meio que já transpareceu viajou viveu levantou caixões.
As vacas das costas hirtas rebatidas no fundo do vale de membros partidos uivam pela morte prazenteira pelo acaso marido e esposa punhados de erva e terra manchas grandes de um branco nauseabundo.
Este fim já está perto de si próprio já sacudi algum do pó que atormentava as rédeas da prontidão já foram expostas a lei contradição já foi reposta o céu calvo que ocultei de cor morta creme exausto e deitado debaixo destas palavras, liso totalmente consumido deixa cair sobre si todo o preâmbulo diminuto completamente absorto.

29.1.11

barrado com película de cristal
quebradiça aparência
oculta a forma como se ferra
e entranha nos músculos
esmaga os volumes outrora carnudos
outrora quentes
nisto as pernas já morreram
nisto os braços estão vivos
pela força da caneta
a flanela não ajuda
gemes como Tristessa
até apertas as nádegas para que não entre alguma brisa gelada
pelo olho do cu
e te suba pela espinha,
o meu coração de flanela e couro
está empedrado,
ao relento.

23.1.11

plumas eriçadas
músculos tão contraídos
que fazem os ossos rachar
quantos dias a gelar
quantos calores movidos

22.1.11

desenhas o vulgar
apenas o que vês
serás boa pessoa
irás a algum lugar
simples inanimado
não desenho estou cansado.

empertigado

que empertigado esse papo galante
dourado passo banal
dobrado raso adjuvante
nem só levantado o papo persiste
deitado o papo insiste
corre relíquia espampanante
o empertigado solta seu amante
vira-se para dentro de si
enrola a carne, dominante, boa pessoa.

20.1.11

aristocracia (rossio)

aristocracia convertida aristocracia segregada aristocracia assassinada. outros que lhe passaram por cima outros que passam outros que rastejam espezinham e calçam o chão diplomático.

19.1.11

prosa - os três demandados

três loucos demandados perseguem linhas de cor enviesadas perpetuadas em ritmos catastróficos fulminantes com passos marcados pelos sapatos sujos de poeira e lama gorda clara cobrindo uns tacões ruidosos que faziam estalar a madeira contra o chão da rua.

prosa - cansaço

desde a ponta dos dedos ao fundo das falanges um ardor latejante percorre e prende todos os simples movimentos até aos desgraçados pulsos.
do fundo dos ossos ressoa uma dor crescente sobrecarregando o peso da carne púrpura. cabelos fracos e secos eriçam-se formando uma cabeleira desprezível inanimada decadente não preciso de falar das minhas pernas gordas que caem em cima dos pés antes esborrachados nem das costas que exalam vivos tenebrosos do pavor de desencaixe estrambólico colapso.
vivam a dor do verdejante não juvenil cobre-as a pele seca e queimada que se rompe em cada pior dos tactos ácidos.

15.1.11

procrastinação
amor de limão,

temor e ficção
doente vivo
clamor e perdição
não reconhece o riso
afogar a solução
estrangular o motivo
ardor e suspeição
o comprovativo
terror exausto ião
superlativo.

13.1.11

Tonto

Tonto
apavorado revoltado com a luz
batida nas paredes, a colorir o canto
e a dobrar o que antes havia num negro
que não é seu,
Tonto
dança uma rede de insígnias brancas,
Tonto
olha as curvas vermelhas e retorce
as ancas esfomeadas,
Tonto
cai vivo, mas sua cabeça grande esmaga-lhe o pescoço,
Tonto
mais que uma lesma voadora
canastrão espalha-muco a toda a hora
Tonto
inútil arrastão que rebola as órbitas
à procura de advérbios nas paredes do quarto.