29.1.11

barrado com película de cristal
quebradiça aparência
oculta a forma como se ferra
e entranha nos músculos
esmaga os volumes outrora carnudos
outrora quentes
nisto as pernas já morreram
nisto os braços estão vivos
pela força da caneta
a flanela não ajuda
gemes como Tristessa
até apertas as nádegas para que não entre alguma brisa gelada
pelo olho do cu
e te suba pela espinha,
o meu coração de flanela e couro
está empedrado,
ao relento.

23.1.11

plumas eriçadas
músculos tão contraídos
que fazem os ossos rachar
quantos dias a gelar
quantos calores movidos

22.1.11

desenhas o vulgar
apenas o que vês
serás boa pessoa
irás a algum lugar
simples inanimado
não desenho estou cansado.

empertigado

que empertigado esse papo galante
dourado passo banal
dobrado raso adjuvante
nem só levantado o papo persiste
deitado o papo insiste
corre relíquia espampanante
o empertigado solta seu amante
vira-se para dentro de si
enrola a carne, dominante, boa pessoa.

20.1.11

aristocracia (rossio)

aristocracia convertida aristocracia segregada aristocracia assassinada. outros que lhe passaram por cima outros que passam outros que rastejam espezinham e calçam o chão diplomático.

19.1.11

prosa - os três demandados

três loucos demandados perseguem linhas de cor enviesadas perpetuadas em ritmos catastróficos fulminantes com passos marcados pelos sapatos sujos de poeira e lama gorda clara cobrindo uns tacões ruidosos que faziam estalar a madeira contra o chão da rua.

prosa - cansaço

desde a ponta dos dedos ao fundo das falanges um ardor latejante percorre e prende todos os simples movimentos até aos desgraçados pulsos.
do fundo dos ossos ressoa uma dor crescente sobrecarregando o peso da carne púrpura. cabelos fracos e secos eriçam-se formando uma cabeleira desprezível inanimada decadente não preciso de falar das minhas pernas gordas que caem em cima dos pés antes esborrachados nem das costas que exalam vivos tenebrosos do pavor de desencaixe estrambólico colapso.
vivam a dor do verdejante não juvenil cobre-as a pele seca e queimada que se rompe em cada pior dos tactos ácidos.

15.1.11

procrastinação
amor de limão,

temor e ficção
doente vivo
clamor e perdição
não reconhece o riso
afogar a solução
estrangular o motivo
ardor e suspeição
o comprovativo
terror exausto ião
superlativo.

13.1.11

Tonto

Tonto
apavorado revoltado com a luz
batida nas paredes, a colorir o canto
e a dobrar o que antes havia num negro
que não é seu,
Tonto
dança uma rede de insígnias brancas,
Tonto
olha as curvas vermelhas e retorce
as ancas esfomeadas,
Tonto
cai vivo, mas sua cabeça grande esmaga-lhe o pescoço,
Tonto
mais que uma lesma voadora
canastrão espalha-muco a toda a hora
Tonto
inútil arrastão que rebola as órbitas
à procura de advérbios nas paredes do quarto.