28.2.11

sete valsas

sete valsas perdidas no verão
sete valsas esquecidas no pó do candelabro
começo a arremessar pêssegos de lã
soltos em cristas correntes esmagados
valsas largas vislumbres compassadas
calóricas virtudes amargas
com os pés leves no chão
soltam-se passos vagos, soltam-se
voltas redondas infinitas
correrias em prata brilhante
círculos de fruta doce
espirais estonteantes
enroladas como raízes aos teus pés
voltas de valsas sete
giram, giram e giram
entrelaçam a pele suave
das tuas pernas
no emaranhado de melodias sete
sobe sobe sobe.

23.2.11

Leituras brancas

leituras brancas
oportunas ou endiabradas
leituras modestas, perversas, ou enterradas
correntes leves
correntes congestionadas
brisas de passos largos
tufos de notícias locais e do além
há estampas floridas na artilharia1
há paredes de baunilha
e senhoras simpáticas a dar informações a condutores perdidos
descidas verdes e vermelhas
agoniadas ou clandestinas
sonhos, desgostos, iminências, eventos, perturbações
tudo me empurra e empurra
fundo para o seio da escrita
a escrita débil e rude corre e apunhala
trespassa-me o coração e o pensamento

sinistro, branco, com agulhas finas compridas apontadas ao tecto
há tanta luz na sala que divago para todo o lado
há tantos brancos derramados
tanta desconcertação viva

13.2.11

Na ala do jardim das trevas

Na ala do jardim das trevas
o leão e o tigre dourado
deambulatório de danças exóticas
os cães e os felinos as aves os mamíferos de grande porte
todos copulam
trocam de pares
fazem ímpares, combinações
cheios de gestos perversos
balanços rodopios flagrantes selvas musgos húmidos e verdes

caos em Manaus
no jardim dos destroços de troncos em chamas
riachos lagos mares entorpecidos
de peixes assexuados
de significados órfãos
é assim o jardim da insónia
das árvores frondosas e arbustos fechados
a abocanhar trechos de branco.

9.2.11

2+2

Cão de madeira, sapo na ratoeira
rato na oficina, tigre da Conchichina
pulga na laranjeira, gato na fruteira
mão de plasticina, sandes de aspirina

corvo de borracha, bolo de bolacha
ténis de papel, gesto de mel
cão segue a marcha, assina e despacha
grogue infiel, cabo de Espichel

dedo na trincheira, passo a passo se esgueira
húmido prazeroso rosto, belo delicioso gosto
aranha matreira, figo figueira
dedo quente posto, figo de Agosto.

6.2.11

Não enchas a memória

não enchas a memória
com torrões mil
não enchas com carrascos
esta história
não entres no covil
caramelos duros e penhascos
não enchas a memória
com flores de Abril
não enchas com vitória
volúpia insana de Damascus

Duas estrofes sobre janelas

Os ventos finos
dobram as cortinas
as vestes de milhares de janelas
dançam indecisas o fora-e-dentro

pelos mil olhos quadrados
passam as areias de seda
para cima e para baixo
rodopiam em remoinho
erguem-se sobre o seu corpo doce
no último suspiro
deixam-se cair moribundas
elegantes guilhotinas a fechar os quadros de pedra

Manhã

a luz que nasce lá fora
entra em fios de seda
pinta todas as paredes
todos os objectos
todas as superfícies
todos os olhos
lá fora brota feliz
pinta meio mundo
só não cai no buraco mais profundo

5.2.11

deste fim

Este fim não está bem tratado, este pó que caiu sobre nós entupiu-me as ideias bloqueou-me o raso vão limitado hemisfério idiota.
Neste fim rolam vacas inteiras contorcidas no seu máximo rolam rolam rolam rolam rolam do cume do grande planalto verde luminoso enquanto desajeitadas embatem com tetas pénis contra o planalto agora vertiginoso e derramam sobre si um banho imenso de esperma leite pigmentos de terra de erva de pedras de pequenos mamíferos de arbustos secos de insectos âmbar.
Entre um fogo-de-artifício de jactos narcisistas pálidos compridos dançam encadeados triângulos atuns e charmantes framboesas.
Das delirantes paixões engordam dias com mandriões neste fim que já passou do meio que já transpareceu viajou viveu levantou caixões.
As vacas das costas hirtas rebatidas no fundo do vale de membros partidos uivam pela morte prazenteira pelo acaso marido e esposa punhados de erva e terra manchas grandes de um branco nauseabundo.
Este fim já está perto de si próprio já sacudi algum do pó que atormentava as rédeas da prontidão já foram expostas a lei contradição já foi reposta o céu calvo que ocultei de cor morta creme exausto e deitado debaixo destas palavras, liso totalmente consumido deixa cair sobre si todo o preâmbulo diminuto completamente absorto.