30.3.11

ah tão bom que é
a chegada do verão,
a chegada do novo sol
ver as miúdas novas do inverno
agora
com menos roupa e mais odores
odores que não suporto
de quenturas do inverno próximo
morte de odores
pior que pólen a brotar são estes cheiros que emanam pútridos corpos.

29.3.11

as curvas grisalhas do amor
deixam cair sobre si
com deleite contido,
a luz platinada,
macia e cortante,
verga-se sobre as faces escuras
quebra-se nas lâminas cortantes

diz que se sente velho
sente sair de si o rancor
cair em si o desamor
vê esvoaçar sobre os cabelos
cadeados brancos de amor
sente poisar em si
o especial tom bronze-cobre
do amargo licor envelhecido
o que escorre para o fundo
inoportuno, lavagante,
num borralho quente,
guardado na garganta dura e húmida.

26.3.11

na primavera prateada
as flores de luz no regaço
também se desvanecem

as personagens monocromáticas
que morriam nos filmes
também se desvanecem

23.3.11

No dia em que me apanhares

no dia em que me apanhares
estarei à tua espera
de cabeça sentada nos anos que passaram
a sonhar sobre adegas e patamares

no dia em que me encontrares
gostava de sonhar que gostava
com o pensamento morno
estarei a lavar-te, quantos baleares

no dia em que me encontrares
já estarei à tua espera
de rosto rugoso arregaçado
trocaremos cinismos inúteis ares

bolsas de gás
contracções
pestilência
redondo rebenta
precoce e levita
levita e cai
contrai
convulsões
ameaças
saltita
esperneia
dilata
explode
contrai
recolhe
encolhe
dobra
contrai
dilata
explode
rebenta
cai
catadupa
viral
cicuta
vendaval
prazer

o alívio
correria
urgência
alegria
coração
esponja mel
boquiaberto
enamorado
em todo o lado
todas as horas
qualquer prado
onde moras

deitado
caído
imóvel
instante distante
retorcido
dobrado
branco e frio
conduzido gelado
brisa
esgueira
fumo que desaparece
que leva tudo e esquece.

19.3.11

As unhas

as unhas
as mãos
a caneta

o entrelaçado guardado
crespo no armário
enrolado ou dobrado
molhado mau hilário

os dedos
os braços
a tinta

o resguardo vincado
nas costas duras
esticado bem armado
gelo das alturas

as unhas
as mãos
os nervos

4.3.11

Às três ou quatro da manhã faltam quinze minutos para atravessar a cerca imoral do

catálogo ilustrado com garrotes e adagas brilhantes

-é tão bom que já começo a sentir náuseas-

salvação ironicamente vertiginosa

pela bigorna indomável e o relógio de batata

bisnaga volúvel a de Madeleine gira sobre si