22.9.12

se o suicídio bastasse

se o suicídio bastasse
se esse edifício já não tivesse pé
se as noites tivessem mais tentações
se todos os abraços frios fossem mais quentes
se os calções de verão ficassem todo o ano na ementa
se o teu coração não escavasse no meu as esporas de domador
se rabos dourados houvesse todo ano
não sei se o meu suicídio bastaria
restariam migalhas
grãos de sal na toalha do almoço
nesse edifício de carne já só são vivas as paredes do desequilíbrio
nessa pose de ninfo-virgem sobra o descalabro
o fim das quedas
cravam-se no meu tecido entorpecido
já só dormem mobílias antigas
mobílias de outra cidade.

20.9.12

sobre o aqui e agora vomito

sobre o aqui e agora vomito:
citrinos embebidos em gin tónico,
um contrabaixo cool, mar undulante,
caem lágrimas de vidro do piano de cauda,
a voz da Norah cheira a ternura,
há camisas cremes, amendoins e muito sal,
aplausos e sofás brancos, mesas de madeira,
há gelo a derreter em todos os copos,
mar verde a pintar as paredes,
brancos enquadrados, deixam entrar
meia cidade em janelas alargadas à doce vista.
Há sobre isto tudo um bafo de Belzebu, vozes
mornas, vidas, vidas de meio-termo
passeando pelo ar.

19.9.12

se a monogamia já não te chega

se a monogamia já não te chega
se os teus sonhos já saíram da tua cama
deixa o cabelo crescer
deixa o lençol descer
não deixes isso incomodar
não deixes que isso,
deixa o cabelo voar
deixa que isso te faça mudar
que a monogamia se redobre
que a tua cama por mais calor se revogue
olhos novos brilham renascem
em compassos delicados que ondulam