6.9.14

os passos que herberto deu

os passos que herberto deu foram redondos,
os que o viram passar morreram numa sedosa desgraça,
os óculos que deixavam ver entorpecem paredes,
os pés que calcorrearam essa dança,
os pés que levaram sancho-pança,
os pés que fizeram as pernas gemer,
e o coração manco entorpecer,
já poucas pegadas encaixam nos pés de herberto,
já pouco calos são empedrados na mesma planta.

31.7.14

as quedas dos muros, já não se fazem em metros

as quedas dos muros, já não se
fazem em metros, e as
descidas na neve não são todas
frias, as nuvens brancas
enrolam-se em tudo por onde
passam, o cimento já é duro
que baste, e o papel mais
macio que as noites de
outono, as danças nos
pomares de prata, a mesa dos
miúdos que falam de festas
e as primeiras experiências
sexuais, sobre isso nem os velhos
telhados da baixa se mexem,
nem o escrivão nem o papiro
já se toleram, o asfalto
já não cobre todas estradas
de pó virgem, as serras já
têm poucas hipóteses de
ficar, com alguém neste
planeta, a natureza deve-te
muito pouco e os cães estão fartos.

16.7.14

os alçapões dourados

os alçapões dourados,
as guias tortas que enrolam mentes em ideias duvidosas,
coxos que resvalam em pensamentos desenquadrados
da relativa permissão cética.

as folhas endiabradas contestam
os calções do outro já não servem
o propósito do ego das fêmeas dos verdelhões,
resvalam em lânguidos corações desengonçados
na rejeição estética.

8.4.14

caio na cama

caio na cama
duzentos pesos derrubam
as minhas pálpebras
já dormentes
mal levanto os braços
os dedos duros
as costelas doridas
e o final do domingo
a entrar em casa

a escuridão
escondida debaixo das pálpebras
quer puxar as cortinas
e o cérebro redondo
vai aos poucos implorando
para cair no sono

já nem penso
em mover as pernas
estendidas pesadas ao longo
não alcanço os pés
algures em
lodo paraplégico

a dormência
é grande
é teia que enredeia
submissão
intolerante